Entre os dias 8 e 16 de novembro de 2025, uma comitiva catarinense participa da Missão Internacional do Integra (Comitê Integrado para a Cidadania e Paz nas Escolas), nos Estados Unidos, com agenda em Washington e visitas técnicas a distritos escolares e instituições de referência. A missão tem como objetivo aprofundar conhecimentos sobre políticas de segurança escolar, prevenção da violência e promoção da cultura de paz, além de apresentar ao Banco Mundial, dois projetos que buscam recursos a fundo perdido para serem implementadas em Santa Catarina.
O Comitê INTEGRA, criado em 3 de maio de 2023 após o ataque à creche Bom Pastor, em Blumenau, é o primeiro instrumento de governança multidisciplinar do Brasil voltado ao enfrentamento da violência escolar. Compõem o INTEGRA forças de segurança pública, redes de educação pública e privada, Ministério Público, órgãos de controle, secretarias estaduais, universidades, prefeitos, professores, pais e estudantes.
Visita a modelo americano reforça foco em acolhimento e saúde mental escolar
A deputada estadual Paulinha (Podemos) e o deputado Mário Motta (PSD), que integra a missão, visitaram o Columbia Heights Educational Campus, em Washington (EUA), referência em inovação pedagógica, acolhimento e segurança estudantil. A experiência foi descrita pela deputada Paulinha como “uma visita que nos emociona e inspira. Eles têm uma política de atenção às crianças e jovens que vai muito além do ensino — é sobre pertencimento, acolhimento e construção de comunidade.”
Na instituição, a delegação conheceu um modelo de acolhimento com 15 profissionais dedicados exclusivamente a receber novos alunos, famílias e colaboradores, além de uma divisão de saúde mental e mediação de conflitos. A escola também adota práticas como o depósito de celulares e tablets em armários trancados durante o turno escolar e promove iniciativas de bem-estar comunitário, como “quarta-feira do bem-estar”, que envolve mais de 35 mil participantes entre alunos, famílias e comunidade. O campus registrou menos de 1% de suspensões no último ano letivo.
Projetos apresentados ao Banco Mundial
Em Washington, a comitiva apresentou ao Banco Mundial dois projetos complementares desenhados a partir do trabalho do INTEGRA: o “PROTEGE SC” (Programa Estadual de Segurança e Infraestrutura Escolar Integrada) e “Vamos Salvar o Dia – Não Terceirize o Amor”. Ambos buscam apoio financeiro a fundo perdido para implantação de ações de prevenção, proteção e promoção da saúde emocional nas escolas catarinenses.
PROTEGE SC — infraestrutura, tecnologia e formação
O PROTEGE SC foi concebido a partir de estudos que apontaram fragilidades estruturais nas escolas catarinenses e o aumento da violência no ambiente escolar. Entre 2013 e 2023, a violência em ambiente escolar no Estado aumentou 254%, com episódios que se intensificaram a partir do impacto global do ataque de Columbine (1999). Em Santa Catarina, tragédias como as ocorridas em Saudades (4 de maio de 2021) e na creche Bom Pastor, Blumenau (5 de abril de 2023), reforçaram a necessidade de uma resposta ampla e coordenada.
O programa propõe captar US$ 10 milhões a fundo perdido para um projeto-piloto em 100 escolas prioritárias (50 estaduais e 50 municipais). Entre as ações previstas estão:
- modernização da infraestrutura de segurança (cercamento inteligente, iluminação de emergência, rotas de evacuação);
- implantação do Sistema Integrado de Monitoramento Escolar (SIMESC), interligado à Polícia Militar e à Defesa Civil;
- capacitação de mais de 2.500 profissionais da educação e da segurança pública em cultura de paz, mediação de conflitos e prevenção da violência;
– ampliação das ações do Comitê INTEGRA.
O PROTEGE SC também incorpora medidas de eficiência energética e sustentabilidade ambiental nas escolas. A meta declarada é reduzir em pelo menos 40% os incidentes de violência escolar e elevar a percepção de segurança das comunidades educativas a 85% até 2029, consolidando um modelo replicável no Estado.
O projeto aponta que 4.897 unidades de ensino, 102.430 professores (89,6% deles mulheres) e 1.595.000 estudantes estariam potencialmente beneficiados por políticas estruturais de proteção.
“Vamos Salvar o Dia – Não Terceirize o Amor”
O projeto “Vamos Salvar o Dia – Não Terceirize o Amor” nasceu do luto de pais de vítimas do ataque à creche Cantinho Bom Pastor, em Blumenau, e tem como objetivo reconectar famílias, fortalecer vínculos afetivos e prevenir automutilação, suicídio infantojuvenil e violência escolar.
Idealizado por Jennifer Pabst e Paulo Edson (pais de Bernardo Pabst da Cunha) e por Regina Maia (mãe de Larissa Maia Toldo), o projeto transforma a frase de Bernardo — “vamos salvar o dia”, em um chamado à presença parental e à responsabilidade afetiva. A proposta já levou a palestra “Não Terceirize o Amor” a mais de 2.000 pessoas e busca agora captar US$ 500.000 a fundo perdido para ampliar sua atuação e alcançar 50.000 pessoas diretamente em dois anos.
O programa inclui palestras presenciais em 200 escolas e em espaços comunitários, com metodologia centrada em depoimentos dos pais, momentos de diálogo, material informativo e emissão de certificados. Entre os indicadores esperados estão a realização de 24 palestras em dois anos, atendimento a 600 escolas, engajamento digital, avaliação positiva das ações (meta de 90% de aprovação) e redução de incidentes de automutilação e relatos de ideação suicida em 15% nas escolas participantes.
Dados alarmantes
Além dos eventos trágicos recentes, o material apresentado ao Banco Mundial destaca indicadores nacionais e locais sobre saúde mental infantojuvenil: segundo consta no projeto, o suicídio é a segunda principal causa de morte entre jovens de 10 a 19 anos (OMS, 2023) e houve aumento de 44% nos casos de automutilação em cinco anos (Ministério da Saúde). Em Santa Catarina, estudos apontam taxa de suicídio juvenil três vezes superior à média nacional (DATASUS, 2023) e elevado histórico de automutilação entre estudantes da rede pública.
Paulinha destacou a importância dos recursos para Santa Catarina. “Mais do que investimento em infraestrutura, estamos falando de investimento em vidas, dignidade e esperança. Nossas escolas precisam voltar a ser territórios de paz, onde as crianças possam aprender sem medo”, finalizou.

