Foto: Divulgação /CBMSC
Era quase madrugada, no dia 12 de janeiro, quando uma ambulância do Corpo de Bombeiros Militar de Santa Catarina recebeu o chamado: uma gestante de 32 semanas com fortes contrações. A guarnição deslocou com urgência. No caminho para o hospital, as contrações se intensificaram. E então, dentro da viatura, com o marido ao lado, a mãe deu à luz. Não só a um bebê, mas a dois. Parto de gêmeos, prematuro, no interior de uma ambulância dos bombeiros em Florianópolis.
Em Itapiranga, quando uma ambulância chegou à Rua das Américas, no bairro Santa Teresa Alto, eram 3h da manhã. A mãe foi encontrada com o parto já realizado, o bebê enrolado numa coberta, no colo da avó, com vias aéreas permeáveis e ativo. Faltava o essencial: clampeamento do cordão, avaliação neonatal, controle térmico. Os bombeiros assumiram.
São cenas que não estão nos boletins de ocorrência de incêndio nem nos resgates espetaculares, mas até maio de 2026 o CBMSC já registrou 232 ocorrências com partos, uma média base de duas por dia. O levantamento traz outro dado relevante: de janeiro a maio deste ano foram pelo menos 40 partos conduzidos diretamente pelas guarnições dos bombeiros militares, fora do hospital, sem médico próximo, com kit parto e treinamento, uma média de um parto a cada 4 dias.
Do total de urgências obstétricas envolvendo partos até o dia 13 de maio, a maioria diz respeito a trabalho de parto que chegou ao hospital a tempo. O que distingue os 40 casos é que, nesses casos, o tempo venceu a distância e a guarnição virou a única equipe de saúde presente no nascimento.

Os números
| Ocorrências obstétricas envolvendo partos em 2026 | 232 média de 2 por dia |
| Partos conduzidos com participação direta pelos BMs | 40 |
| Partos iminentes de alto risco (coroamento no transporte) | 9 |
| Total de situações críticas | 49 |
| Transporte em trabalho de parto | 137 |
| Evolução anual (ocorrências obstétricas) | 2024: 171 | 2025: 199 | 2026: 232 (parcial até maio) |
“Foi um susto. Se não fossem os bombeiros, eu não sei como seria”
No dia 2 de janeiro, por volta das 21h, uma gestante em trabalho de parto apareceu no quartel dos bombeiros de Itapema. A guarnição foi até o veículo onde ela se encontrava e constatou que já estava em período expulsivo. O parto aconteceu ali, sem intercorrências. O caso de Itapema tem um detalhe que se repete em vários relatórios: a gestante não ligou para o 193, ela foi direto ao quartel. Em Brusque, outra mãe fez o mesmo: chegou ao quartel já coroando, e a guarnição fez o auxílio ao parto antes de acionar o Samu para o transporte.
Em Blumenau, a ambulância foi acionada para um parto domiciliar consumado. No local, encontrou a mãe com duas recém-nascidas. Uma delas teve apresentação pélvica incompleta durante o parto, uma das complicações mais graves em obstetrícia de emergência. Diante das condições do ambiente, um local de difícil acesso e com risco de contaminação, a guarnição optou por manter o clampeamento tardio e não seccionar os cordões umbilicais fora do hospital, priorizando a prevenção de hipotermia neonatal com mantas térmicas e contato pele a pele. Mãe e bebês foram transportadas estáveis para o Hospital Santo Antônio. Uma decisão técnica que precisou ser correspondida ao ambiente.
No Oeste, em São José do Cedro, a guarnição foi acionada para atender uma gestante com contrações contínuas, rompimento da bolsa e perda de líquido. Quando chegaram, a mãe já estava em período expulsivo. O parto começou na residência. Leandro Henrique é seu terceiro filho e nasceu com choro espontâneo, boa respiração e sinais estáveis. Diferente das duas gestações anteriores, que tiveram acompanhamento médico no hospital, desta vez o nascimento aconteceu em casa, com os bombeiros fazendo clampeamento, secção do cordão e proteção térmica. O atendimento no local durou 10 minutos. Mãe e filho receberam alta no dia seguinte.
Integrante da ambulância que atendeu o caso, o Soldado Guilherme Erlo destacou a necessidade de resposta rápida: “… quando chegamos, a gestante já estava na fase final do trabalho de parto. Foi tudo muito rápido. Iniciamos imediatamente o atendimento e conseguimos auxiliar o nascimento com a segurança necessária para a mãe e o bebê. São momentos como esse que marcam muito a equipe, pois sabemos que estamos ajudando a trazer uma nova vida ao mundo”, testemunhou.
“Foi um susto. Se não fossem os bombeiros, eu não sei o que teria feito.”, completou Fátima, mãe de Leandro Henrique.

Nascidos na viatura: quando o tempo vence a distância
Em Ituporanga, no dia 28 de abril, uma gestante de 24 anos com 39 semanas foi atendida na SC-350, localidade de Rio Bonito. Já apresentava rompimento da bolsa e contrações regulares. A equipe iniciou o transporte com acompanhamento médico do helicóptero Arcanjo 03. A poucos metros do Hospital Bom Jesus, uma menina nasceu dentro da viatura, sem intercorrências.
Em Cocal do Sul, o cenário foi quase idêntico: a gestante foi avaliada sem coroamento, o transporte começou, mas durante o trajeto as contrações passaram a ocorrer a cada minuto, a bolsa rompeu e o coroamento começou. O bebê nasceu a 200 metros do hospital, por volta das 11h. A guarnição envolveu o recém-nascido em manta aluminizada e entregou para a mãe, com o cordão ainda intacto. A equipe de enfermagem chegou em seguida.

O corredor dos partos: Litoral Norte concentra quase metade
A geografia dos partos fora do hospital em Santa Catarina tem uma concentração clara: a Foz do Itajaí. A região que vai de Barra Velha a Balneário Camboriú concentra 20 dos 40 partos, 50% do total. O Vale do Itajaí vem em seguida com 8 ocorrências, puxadas por Blumenau e Ituporanga. Já o Oeste, apesar de responder por 45 chamados obstétricos no total, registrou apenas 4 partos na cena. Florianópolis ilustra bem esse paradoxo: lidera em volume total de chamados obstétricos, mas acumula só quatro partos na cena, incluindo o gemelar de janeiro.
O intercâmbio maternal
Entre os relatórios, há ocorrências envolvendo gestantes estrangeiras. Em Rio do Sul, uma venezuelana com 39 semanas de gestação foi atendida e transportada em trabalho de parto. Já na Capital, no norte da Ilha, três bombeiros atenderam o trabalho de parto de uma russa de 35 anos. Nem a barreira do idioma atrapalhou a técnica e a eficiência da equipe, que realizou o corte do cordão umbilical, a manutenção da temperatura corporal e conduziu mãe e filha ao Hospital Carmela Dutra.
Quando e onde os partos acontecem
Dos 40 partos com participação dos bombeiros, a maioria ocorre pela manhã, entre 6h até 12h. Os municípios com registros de partos assistidos pelos bombeiros em 2026 são Araquari, Balneário Camboriú, Balneário Piçarras, Barra Velha, Blumenau, Brusque, Chapecó, Cocal do Sul, Correia Pinto, Criciúma, Florianópolis, Garuva, Itajaí, Itapema, Itapiranga, Ituporanga, Laurentino, Ouro, Penha, Santa Cecília, São José, São José do Cedro, Videira.


