O projeto Vozes da Sabedoria apresenta a história de Margarete Neves, de 64 anos, moradora de Porto Belo que carrega lembranças de diferentes épocas do município. A entrevista foi realizada em 13 de outubro de 2026, data em que a cidade celebrou 194 anos de emancipação político-administrativa, e marcou a participação da primeira mulher nesta temporada do projeto.
Durante a conversa, Margarete compartilhou recordações da infância, tradições culturais, histórias de família e experiências que ajudam a preservar a identidade e a memória da comunidade porto-belense.
Lembranças da antiga Porto Belo
Embora tenha nascido em uma maternidade de Tijucas, Margarete se considera nativa de Porto Belo, cidade onde foi criada e construiu sua história.
Entre as recordações da infância está a antiga região da Salga, onde os peixes eram salgados para conservação antes de a refrigeração se tornar comum. Ela também relembrou o traçado das antigas estradas, que passavam em frente à igreja matriz antes da construção da Avenida Governador Celso Ramos.
As memórias dos anos 1960 e 1970 incluem ruas de chão, rios de águas limpas e a convivência entre moradores em uma cidade de características simples, muito diferente da Porto Belo atual.
A pesca, os engenhos e os costumes de antigamente
As tradições ligadas ao mar também fizeram parte da entrevista. Margarete recordou a pesca com redes de arrasto na praia, utilizada para capturar sardinhas e tainhas nas proximidades da igreja matriz e da Ilha do Pirão.
Ela ainda relembrou o costume de catar berbigões no Baixio, utilizando pequenas latas furadas preparadas por seu avô.
Outro destaque foram os antigos engenhos de farinha de mandioca, onde o trabalho coletivo de raspar a mandioca e fornear a farinha reunia famílias e moradores, fortalecendo os laços comunitários.
O carinho transmitido pelas receitas e pelo Pão por Deus
A culinária é uma das heranças mais presentes na vida de Margarete. Ela aprendeu a cozinhar e a preparar doces com sua avó materna, Vó Malfisa, que viveu até os 104 anos.
Entre as tradições que mantém está o Pão por Deus, manifestação cultural de origem açoriana que expressa carinho e gratidão por meio de versos e presentes preparados artesanalmente.
Margarete costuma presentear amigos e pessoas da comunidade com bolo de fubá com canela, bolo de arroz e biscoitos em formato de coração rendado, acompanhados de pequenas mensagens.
Na entrevista, ela também recordou o pai, que trabalhava como padeiro na tradicional Padaria da Tia Teta e produzia pães artesanais em formatos de animais, como lagartos.
Artesanato como transformação e aprendizado
Em 2009, após enfrentar um período difícil, Margarete começou a participar de cursos de patchwork e costura criativa promovidos pela Fundação de Cultura.
A atividade passou a ocupar um lugar importante em sua vida, contribuindo para seu bem-estar e abrindo novos caminhos de expressão. Com o tempo, ela desenvolveu habilidades na confecção de colchas, bonecas — incluindo a personagem Emília — e diversas peças sob encomenda.
Além de produzir seu próprio artesanato, Margarete também atuou como instrutora, compartilhando conhecimentos e técnicas com outras pessoas.
Família e lugares que guardam histórias
Casada com Antônio José Peixoto dos Anjos, conhecido como Tonho, Margarete tem três filhas, netos e um bisneto, Vicente. Um dos motivos de alegria da família é a presença de sua mãe, de 80 anos, que permite reunir cinco gerações.
Ela também compartilhou lembranças ligadas à família do marido, filho de Zeli, figura conhecida pelo comércio tradicional de secos e molhados em Porto Belo.
Entre os lugares que têm significado especial em sua trajetória estão o Canto das Videiras, também chamado de Canto das Vieiras, e o Píer dos Pescadores, regiões que remetem à infância, à paisagem e ao pôr do sol que fazem parte de suas memórias afetivas.
Vozes da Sabedoria preserva a memória de Porto Belo
O Vozes da Sabedoria é um projeto realizado por meio de emenda impositiva da Câmara de Vereadores, em parceria com a Fundação de Cultura de Porto Belo. A iniciativa registra as histórias de moradores, valorizando suas experiências e o conhecimento transmitido entre gerações.
A participação de Margarete reforça a importância de preservar relatos que ajudam a compreender as transformações da cidade e a manter vivas as tradições que fazem parte da identidade cultural de Porto Belo.










