O El Niño está ganhando força e já apresenta uma anomalia de aproximadamente 1,8°C na temperatura da superfície do Oceano Pacífico, colocando o fenômeno na categoria considerada forte. A expectativa é de que os índices ultrapassem os 2°C nas próximas semanas, o que levaria o evento à classificação de muito forte, também chamada de “Super El Niño”.
Diante desse cenário, a Defesa Civil de Santa Catarina mantém o monitoramento permanente das condições climáticas e chama a atenção para os possíveis impactos do fenômeno no estado, especialmente durante a primavera de 2026 e o outono de 2027.
Apesar da preocupação, a Defesa Civil destaca que a intensidade do El Niño, isoladamente, não determina a ocorrência de grandes desastres. A formação de enchentes, temporais severos e outros eventos extremos depende da combinação de diferentes fatores atmosféricos e oceânicos.
El Niño forte pode se tornar muito forte
O acompanhamento do fenômeno é realizado em diferentes regiões do Pacífico Equatorial, conhecidas como Niño 1+2, Niño 3, Niño 3.4 e Niño 4. Para definir a intensidade do El Niño, uma das principais referências utilizadas pelos especialistas é a região Niño 3.4.

O fenômeno é considerado estabelecido quando a temperatura da superfície do mar nessa área permanece pelo menos 0,5°C acima da média climatológica durante vários meses consecutivos.
A classificação segue uma escala: anomalias entre 0,5°C e 0,9°C correspondem a um El Niño fraco; de 1°C a 1,4°C, moderado; de 1,5°C a 1,9°C, forte; e acima de 2°C, muito forte.
Segundo o gerente de monitoramento e alerta da Defesa Civil de Santa Catarina, Frederico de Moraes Rudorff, os atuais 1,8°C colocam o fenômeno na faixa forte e existe grande possibilidade de avanço para a categoria muito forte.
Intensidade não significa necessariamente mais desastres
A experiência dos últimos anos mostra que não existe uma relação direta entre a intensidade do El Niño e a dimensão dos eventos extremos registrados.
Rudorff lembra que as grandes enchentes que atingiram o Vale do Itajaí em 2023 e o Rio Grande do Sul em 2024 ocorreram durante um El Niño moderado. Mesmo assim, os impactos foram superiores aos registrados em 2015, quando o fenômeno chegou a uma das maiores intensidades observadas.
O especialista também cita eventos severos registrados durante períodos de La Niña, como os desastres de 2008, as enchentes no Alto Vale do Itajaí em 2011 e o ciclone-bomba de 2020.

Por isso, o monitoramento considera uma série de indicadores além da temperatura do Pacífico.
Outros fatores podem definir a intensidade dos temporais
Entre os elementos acompanhados pelos meteorologistas está a oscilação Madden-Julian, um padrão climático que se desloca pelos trópicos em ciclos de aproximadamente 30 a 60 dias, alternando períodos mais úmidos e secos.
Também são avaliadas as condições do jato subtropical e o transporte de umidade, fatores que podem contribuir para a formação e intensificação de sistemas de chuva sobre Santa Catarina.
Em 2023 e 2024, por exemplo, a combinação desses elementos favoreceu o transporte de grandes volumes de umidade para o estado e contribuiu para eventos extremos.
Oceanos mais quentes aumentam a disponibilidade de umidade
Outro ponto que preocupa os especialistas é o atual nível de aquecimento dos oceanos.
Com temperaturas oceânicas mais elevadas, existe maior disponibilidade de umidade na atmosfera. Essa umidade funciona como combustível para a formação de tempestades e episódios de chuva intensa.
A situação também levou a NOAA (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos) a utilizar um índice relativo para avaliar a intensidade do El Niño, conhecido como Relative Oceanic Niño Index (RONI).

O indicador considera o aquecimento geral dos oceanos tropicais para permitir uma comparação mais adequada entre fenômenos registrados em diferentes períodos.
Primavera de 2026 é considerada uma das janelas mais críticas
Historicamente, os efeitos do El Niño tendem a ser mais perceptíveis em Santa Catarina durante as estações de transição.
A primavera de 2026 é apontada pela Defesa Civil como uma das principais janelas de atenção, seguida pelo outono de 2027.
Nessas épocas, o transporte de umidade proveniente da Amazônia tende a favorecer a ocorrência de períodos mais chuvosos no Sul do Brasil.
No verão, esse fluxo costuma se direcionar mais para o Sudeste, reduzindo a influência direta sobre Santa Catarina.
Temperaturas devem ficar mais elevadas
O comportamento das temperaturas também pode sofrer influência do fenômeno.
Depois de um início de inverno marcado por temperaturas mais baixas, julho e agosto apresentaram condições mais amenas, com maior nebulosidade e ocorrência mais frequente de chuva.
A tendência apontada pela Defesa Civil é de anomalias positivas de temperatura nos próximos meses, ou seja, temperaturas acima da média em determinados períodos.
Tornados e ciclones também estão no radar
O aumento da disponibilidade de umidade e de condições de instabilidade pode favorecer a ocorrência de eventos severos, como microexplosões e tornados.
Entretanto, a Defesa Civil reforça que isso não significa necessariamente que os fenômenos serão mais intensos.
Um exemplo citado é o tornado de categoria F4 registrado no Paraná no ano passado, que ocorreu durante um período de influência do La Niña.
Defesa Civil orienta população a se preparar
Com a possibilidade de períodos de chuva mais frequente e eventos severos, a orientação é para que a população não espere a ocorrência de um desastre para adotar medidas preventivas.
A Defesa Civil recomenda que os moradores conheçam as características da região onde vivem, saibam se estão em área sujeita a inundação e identifiquem previamente o abrigo mais próximo.
Outra orientação é realizar o cadastro no sistema de alertas da Defesa Civil. Para isso, basta enviar um SMS com o CEP para o número 40199.
Durante temporais com ventos fortes ou granizo, a recomendação é procurar um local seguro, afastando-se de árvores, postes e estruturas que possam cair.
Em imóveis que não sejam construídos em alvenaria, o banheiro pode oferecer uma estrutura mais resistente durante situações de vento extremo.
A Defesa Civil também alerta para que a população nunca tente atravessar ruas alagadas, pontes submersas ou áreas tomadas pela correnteza. Grande parte das mortes relacionadas às inundações ocorre quando pessoas tentam passar por locais onde a força da água não pode ser dimensionada com segurança.
Sinais como rachaduras em paredes ou muros, postes inclinados ou água barrenta surgindo de barrancos também exigem atenção imediata, pois podem indicar risco de deslizamento.
Nessas situações, a orientação é deixar o imóvel imediatamente e acionar a Defesa Civil pelo telefone 199 ou o Corpo de Bombeiros pelo 193.
O acompanhamento do El Niño continuará sendo realizado de forma permanente em Santa Catarina, com atenção especial à evolução das condições oceânicas e atmosféricas que podem determinar os impactos do fenômeno sobre o estado.
Foto: Thiago Kaue / SecomGOVSC










